Portuguese English

O que a Natureza nos dá

  Normalmente falamos sobre as ervas aromáticas que cultivamos. Germinadas, transplantadas, regadas e nutridas de forma a potenciar as suas qualidades aromáticas em nosso serviço. Espécies cuidadosamente seleccionadas durante décadas, a Natureza domada pelo Homem de modo a atingir um fim comercial. Já conhecemos as nossas preferidas: orégãos, hortelã-pimenta, salva, tomilho, louro...

Apesar de estarem alinhadas em camalhões bem definidos como soldados bem comportados, com tubos de rega gota-a-gota aos seus pés e sob o comando das nossas tesouras, crescem também selvagens em várias partes do mundo. Estas plantas que se vendem hoje em grande escala chegaram até nós por terem características medicinais e/ou aromáticas específicas, que as distinguiram entre tantas outras plantas.

   A zona geográfica onde se localiza a Herbaterra é rica em património vegetal adaptado ao clima de sequeiro e ainda podemos observar várias espécies de plantas medicinais e aromáticas crescendo selvagens nas encostas da Serra da Portel. Algumas são já familiares como os orégãos e o poejo (que cresce nas margens dos cursos de água), mas outras são algo desconhecidas, possuindo curiosas características que valem a pena ser partilhadas. Ao longo dos próximos posts vamos apresentar algumas que nos rodeiam.

Plantago, da família Plantaginaceae, é um género de planta medicinal nativa da Europa, embora possa ser encontrada em muitas outras partes do mundo. É composto por cerca de 200 espécies diferentes e é geralmente visto como uma planta daninha, uma vez que tem um grande potencial de dispersão e germinação. Sorte a nossa porque apresenta uma panóplia de utilizações e propriedades medicinais muito interessantes: como as sementes de chia, as sementes de plantago incham em contacto com água e formam uma mucilagem (especialmente para a espécie P. psyllium), podendo ser usadas como um laxante natural ou como um suplemento de fibra; em infusão apresenta propriedades expectorantes, diuréticas e anti-inflamatórias; externamente é usada na formulação de pomadas e cremes para tratar cortes, picadas ou qualquer inflamação cutânea devido às suas propriedades anti-sépticas. Precisamos de mais ervas daninhas destas nos nossos quintais!

Plantago

 

Fumária (Fumaria officinallis) pertence à família das papoilas (Papaveraceae) e é uma planta delicada que nos passa frequentemente despercebida. É conhecida desde a Idade Média pelas suas propriedades medicinais: internamente apresenta propriedades diuréticas, depurativas e é indicada para ajudar com afecções do fígado; externamente é utilizada para aliviar os sintomas da psoríase e outras afecções cutâneas. É, no entanto, necessário todo o cuidado na sua utilização uma vez que em doses elevadas a planta é cardiotóxica, devido à sua composição em alcalóides. Mas de forma ainda mais interessante, a Fumária possui um componente largamente utilizado na indústria alimentar, o ácido fumárico, que tem sido utilizado como acidulante (potenciador do paladar ácido) de alimentos desde 1946 – de bebidas a batatas fritas com sabor “avinagrado”!

Fumaria
   Gostaríamos de frizar que todo o cuidado é pouco quando se utiliza uma planta silvestre, seja externa ou internamente. É necessário ter absoluta certeza daquilo que estamos a colher, da maneira como é preparado e quais as doses aconselhadas. É muito imprudente deixar as coisas ao acaso. Por isso, em caso de dúvida, nunca usar material vegetal desconhecido e procurar aconselhamento.

   Mais vale tarde que nunca, por isso não poderíamos terminar sem desejarmos a todos um 2016 em grande, cheio de motivação, força e ambição. E claro, muitas ervas aromáticas produzidas com respeito pelos nossos ecossistemas!

comentário(s)