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Luta Biológica

O fim do mês de Março trouxe os primeiros cortes da temporada 2015. Com temperaturas a rondar os 30ºC e largos céus azuis demos início à rotina de cortes na exploração – calhou a um dos campos de tomilho-vulgar a regalia de ser o primeiro. Já em início de floração, estas ervas aromáticas sub-arbustivas são um autêntico chamariz para insectos polinizadores, que zumbiam ruidosamente à nossa volta enquanto trabalhávamos. As podas manuais são também uma excelente oportunidade para observar o estado geral de saúde das plantas e se alguma praga ou doença está presente em estado inicial. Os cortes sucederam-se ao longo do mês de Abril e irão continuar até o Outono o permitir.


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No início deste mês deparámo-nos com um cenário digno de ser partilhado. Ao percorrer as linhas de camomila em desenvolvimento observámos alguns focos de afídeos (também denominados de piolhos ou pulgões), que estavam a afectar o desenvolvimento normal das plantas. Estes pequenos insectos sugam a seiva das plantas e, encontrando as condições ideais, reproduzem-se aos milhares. Visto que a praga se localizava em focos mais ou menos bem definidos, decidimos esperar e ver como se desenvolvia antes de proceder a algum tratamento específico para agricultura biológica. Foi para nosso espanto que, uns dias depois, constatámos a presença de um exército de larvas de joaninha (e algumas joaninhas adultas também) nos locais infestados por afídeos. Uma verdadeira linha de frente estava a dizimar as populações de pulgões, visto que uma única larva pode consumir dezenas destes pequenos insectos por dia. Dentro de uns dias as plantas pareceram recuperar, embora suportassem as cicatrizes do ataque sofrido como caules, folhas e alguns botões de flôr atrofiados – algo que acabou por ser irrisório visto que a camomila se encontrava em crescimento activo. A Natureza tratou desta praga sem que tivéssemos de intervir. Interessante...

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Noutro cenário, se a primeira reacção do agricultor fosse aplicar pesticidas para erradicar os afídeos, estes insectos e todos os outros que compõem um ecossistema saudável e funcional teriam sido extreminados. Os afídeos encontram-se em qualquer planta e em qualquer lugar, desenvolvendo formas aladas na Primavera e, mais tarde no Outono, o que permite a sua dispersão; poderiam então encontrar o seu caminho de novo para os campos após um período de tempo, desenvolvendo-se rapidamente porque possuem a extraordinária (!) capacidade de se reproduzir assexuadamente e aos milhares. Por outro lado, os predadores naturais destes insectos, como as joaninhas, reproduzem-se sexuadamente e por ciclos anuais: aqui jaz a verdadeira consequência do uso destes químicos nos ecossistemas agrários, o descontrolo das populações de pragas nocivas (que recuperam e se reproduzem rapidamente) devido à ausência de predadores naturais (que se reproduzem lentamente e demoram a recuperar de grandes perdas de populações).

As camomilas estão agora em plena produção, frondosas e carregadas de flores aromáticas. Embora presentes, as populações de afídeos parecem estar sob controlo, servindo de alimento a outros insectos. Mesmo potenciais pragas têm lugar no ecossistema, desempenhando um papel fundamental na estabilidade do mesmo. Mas ainda assim… por favor mantenham-se longe das nossas flores!

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